O mercado global da música eletrônica alcançou a marca de US$ 12,9 bilhões, de acordo com dados apresentados pelo IMS (International Music Summit), e o Brasil surgiu como um dos protagonistas desse crescimento. Esse foi um dos principais temas debatidos na terceira edição da Hot Beats Music Conference, realizada entre os dias 21 e 24 de maio, no Rio de Janeiro.
Com mais de 1.500 participantes, 150 palestrantes, 40 painéis e 20 workshops, o encontro reuniu representantes de algumas das maiores instituições e empresas da indústria musical mundial, incluindo Amsterdam Dance Event, Beatport, Spotify, Rock in Rio, Tomorrowland Brasil, ONErpm, UBC, AFEM e LabelWorx. O foco das discussões esteve voltado para os novos caminhos da música eletrônica, a creator economy e a crescente exportação da cultura brasileira.
Segundo Rafael Nazareth, sócio-fundador da Hot Beats, a trajetória do projeto acompanha o momento de destaque vivido pelo país. “A Hot Beats nasceu de pequenos workshops e, em poucos anos, ganhou dimensão nacional e internacional. A parceria oficial com o ADE mostra como o Brasil passou a ocupar uma posição cada vez mais relevante dentro da cultura eletrônica global”, destacou.
O avanço da música eletrônica brasileira no exterior esteve presente em diversos debates. Durante sua participação na conferência, Wiecher Troost, Head de Programação do Amsterdam Dance Event, ressaltou a influência do país na cena internacional e apontou o funk como um dos movimentos culturais mais importantes da atualidade.
Essa ascensão também foi tema de um painel liderado pelo Beatport. Recentemente, a plataforma criou oficialmente a categoria “Brazilian Funk”, reconhecendo a força do gênero no mercado internacional. Raphael Pujol, representante global da empresa, apresentou trechos do documentário Funk do Brasil e explicou como elementos do funk vêm sendo incorporados por DJs e produtores de diferentes estilos ao redor do mundo. Pujol comparou o fenômeno brasileiro ao crescimento do amapiano sul-africano e afirmou que a inclusão do Brazilian Funk na plataforma faz parte de uma estratégia para ampliar a presença da música sul-americana no cenário global.
A força da nova geração também ganhou espaço durante um painel que reuniu MC GW, GBR e Petroski. Os artistas discutiram como as sonoridades híbridas criadas nas redes sociais e nos bailes estão moldando o futuro da música eletrônica e conquistando novos públicos fora do Brasil.
Outro momento de destaque foi a apresentação inédita do relatório sobre música eletrônica desenvolvido pela UBC. O estudo trouxe um panorama detalhado sobre o comportamento do público brasileiro e a evolução do setor nos últimos anos. Para Peter Strauss, diretor de operações da entidade, a música eletrônica já ultrapassou há muito tempo a condição de segmento alternativo dentro da indústria. Um dos dados que mais chamou atenção foi a forte presença do repertório nacional entre os ouvintes brasileiros, contrariando a percepção de que o consumo seria majoritariamente voltado a artistas internacionais.
O levantamento também revelou mudanças importantes no comportamento do público após a pandemia. A música eletrônica passou a ocupar um espaço cada vez maior dentro das redes sociais, da estética digital e da creator economy, ampliando sua influência para além das pistas. Entre os números apresentados durante a conferência, o Brasil aparece entre os dez maiores consumidores de música eletrônica do planeta. Os fãs do gênero dedicam mais de 16 horas semanais à escuta musical, enquanto a hashtag #ElectronicMusic ultrapassou 13 bilhões de visualizações no TikTok em 2024. Além disso, 70% dos adolescentes brasileiros afirmam descobrir novas músicas por meio das redes sociais.
A programação também abriu espaço para discussões sobre saúde mental, excesso de estímulos digitais e os desafios da construção artística em um ambiente marcado pela velocidade constante da informação.
Durante o painel “Vida de Artista: Entre Palcos, Pressão e Propósito”, Renato Ratier chamou atenção para a superficialidade gerada pela hiperaceleração do mercado contemporâneo, destacando a importância de preservar referências culturais e aprofundar conexões dentro da cena.
Além dos debates, representantes do Rock in Rio e do Tomorrowland Brasil abordaram temas como impacto econômico dos festivais, inteligência artificial aplicada à música, branding artístico, diversidade e internacionalização da cultura eletrônica brasileira. A conferência também expandiu sua programação para diferentes pontos da cidade, promovendo showcases, encontros culturais e ativações em espaços como D-EDGE Rio, Fatchia, Pato com Laranja, Quiosque 10 e Meio e Vidigal, que recebeu uma edição especial do Baile da Galecta.
Para Raphael Porto, sócio-fundador da Hot Beats, a proposta foi aproximar o público da experiência vivida nas principais conferências internacionais. O resultado apareceu na forte adesão às atividades paralelas e nos eventos que movimentaram a cidade ao longo dos quatro dias.
Ao fim da edição, a Hot Beats consolidou sua posição como uma das principais plataformas de debate, networking e desenvolvimento da música eletrônica na América Latina. Em um momento de expansão do mercado global, o evento reforçou a percepção de que o Brasil deixou de ser apenas consumidor de tendências para se tornar uma das forças que ajudam a definir os rumos da indústria mundial do entretenimento.